segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Eles marcaram o desenho e entraram para a história!


Continuação da história da Bauhaus e a influência do modernismo na arquitetura contemporânea.
Como não havia no continente Europeu outra escola de arte, a Bauhaus se tornou o único ponto de convergência de pensamentos vanguardistas e ideias revolucionárias.
Era de fato, um modo de lidar com a vida de forma estética.
Bauhaus é a junção de “bauen” (“para construir”, em alemão) e “haus” (“casa”).
Logo, Bauhaus seria, 'uma casa em construção'.
A maior instituição de desenho do séc. XX influenciou a forma desde utensílios de cozinha, até a tipografia e o mobiliário, passou a ser considerada uma 'ciência visual'.
Nasceu da catástrofe e da dor provocada na humanidade pela Primeira Grande Guerra, talvez fruto do desejo de um mundo mais simplificado e menos conflituoso, num gesto de rebeldia estampada na arte de projetar espaços, mas também na maneira de se vestir e de se comportar. Os alunos da Bauhaus, com seus cabelos longos amarrados em rabos de cavalo, acompanhados de moças que usavam calças compridas eram considerados subversivos.
A escola ficava no centro cultural do país, Weimar, terra de Goethe, Shiller, Nietzsche, Liszt e Bach, mesmo assim quando os alunos da Bauhaus passavam, os pais diziam às suas filhas: -Não olhem, são os garotos da Bauhaus, como se eles tivessem uma doença contagiosa, talvez a mais perigosa de todas, aquela que produz pensamentos e provoca grandes e verdadeiras mudanças. Eu diria que o mundo até hoje, tem medo delas!
A escola tinha oficinas onde alunos colocavam em prática todo seu aprendizado e assim o desenho pulava do papel para a realidade e nasciam tecidos, cerâmicas, cadeiras.
Aqui peço licença para um parêntese pessoal e uma comparação com a escola onde estudei.
A FUMA, em Belo Horizonte era uma escola aos moldes da Bauhaus, nossos projetos saiam do desenho para a oficina de maquetes, o banco de um carro, se não me engano, o do Passat, foi projetado e teve seu protótipo construído dentro da escola por um aluno de Desenho Industrial. Cartazes e banners eram criados e impressos dentro de nossas oficinas, um kart foi construído pelos alunos e acompanhávamos os desafios construtivos com 'pitacos'. Muitas vezes nos envolvíamos com projetos dos outros cursos. Não era raro ver uma escultura sendo erguida no pátio da escola e dias depois encontrá-la no hall do Palácio das Artes ou no lobby de um Hotel da capital mineira.
As aulas de fotografia não se restringiam ao laboratório, íamos pra rua, para os museus, para as galerias de arte e para as obras. Na aula de anatomia artística estudávamos o corpo humano, com seus ângulos de assento e alturas para o perfeito funcionamento de peças do mobiliário. O ensino era prático e assim, mais palpável, real, concreto, mais possível e vivo. Posso afirmar e garantir, que isto tudo faz uma enorme diferença, nem que seja na segurança do aluno e na sua coragem de ousar e ir além do óbvio.
Mas voltemos à Alemanha...
O pensamento construtivista da Bauhaus tinha a clara intenção de derrubar as barreiras entre arquitetura, artes plásticas e artesanato e desta forma unir o desenho em um todo coerente.
Joahannes Itten foi o professor que chegou mais perto de conseguir esta façanha, com seu método de ensino baseado em técnicas budistas. Ele era discípulo de Masdaznan, tinha a cabeça raspada e usava túnicas de monge.
A Bauhaus quebrava sempre os padrões e fugia de toda convencionalidade. O aluno experimentava uma liberdade criativa não conhecida até ali e então era amor à primeira vista ou à primeira experiência.
Antes de estudar a teoria, aprendiam na prática sobre cores, formas e texturas e tomavam intimidade com a tridimensionalidade. Só então era introduzido a parte teórica, justamente o oposto da maioria das escolas.
Não era raro acontecer de um aluno ganhar destaque em alguma área como aconteceu com Marianne Brandt, que criou utensílios domésticos que na época foram considerados simples demais, modernos demais.
Marrianne Brandt e suas criações.
Alguma dúvida sobre a influência de seu desenho neste espremedor de frutas de Phillipe Starck?
A oficina de teatro era outro ponto forte, ela permitia que os alunos experimentassem a criação de cenários e possibilitava a prática do uso de luzes e cores na iluminação. A presença de Laszlo Moholy Nagy, outro grande nome da arte, deu vida nova à escola.
Algumas obras de Moholy Nagy.
Como a escola era mantida com dinheiro público, em 1923 foi realizada uma exposição com a finalidade de dar uma satisfação a sociedade do que era realizado com o dinheiro do contribuinte e assim a Bauhaus passou a ser vista internacionalmente.
Foi construída uma casa experimental, com todos os utensílios, mobiliário e objetos da vida prática moderna e tudo com um custo reduzido a fim de ser fabricado em larga escala, para atender a classe trabalhadora. A medida que o nazismo ia ganhando força, a escola e seus membros se sentiam cada vez mais ameaçados e antes que os generais alemães a pudessem fechar, eles se mudaram para Dessau.
Com projeto de Gropius, em menos de uma ano, as novas instalações da Bauhaus em Dessau estavam prontas para abrigar os jovens arquitetos e designers, animados e dispostos a um recomeço.
O mobiliário ganhava ares de engenharia, era inspirado em peças automotivas e influenciados pela aerodinâmica, a cadeira Wassily, desenhada para Kandinsky, por Marcel Breuer, em aço inox e couro é o retrato fiel deste período.
A fotografia passou a ser explorada como meio de comunicação visual e não somente como arte, entraram em cena, as fotomontagens.
A tipografia e o desenho gráfico foram revisado, servindo muito mais a função de comunicar. Herbert Bayer criou o alfabeto universal Sturm Blond, somente com letras minúsculas e usou o seguinte argumento: Quando falamos, não existem “maiúsculas” ou “minúsculas”...faz sentido...rs.
Herbert Bayer
Alfabeto universal Sturm Blond
Surgiram fontes de letras (como a Times New Roman e a Arial), com formas gráficas mais simples ...a publicidade ganhava novo fôlego e o século XX tinha uma nova face.
Com receio de que os nazistas fechassem a escola, Gropius sai de cena e passa a direção da escola a Hannes Meyer, em 1929.
Para Meyer, as necessidades humanas – biológicas, intelectuais, espirituais e físicas, deveriam ser a base do processo de construção e por isso, o funcionalismo e o conforto passaram a ser levados tão a sério. Embora fosse arquiteto, foi sob seu comando que o desenho industrial ganhou evidência na Bauhaus, mas sua posição política de esquerda era tão forte ou mais do que a de Gropius e ele colocou a escola em risco.
Dois anos depois, é a vez do mais amigável e disciplinado entre todos os diretores a assumir a Bauhaus, Ludwig Mies van der Rohe, considerado um dos arquitetos mais importantes do século XX. Falamos dele e mostramos seu trabalho na matéria anterior.
A escola ainda se mantinha de pé, mesmo sob a pressão política e a iminência de uma Segunda Guerra, mas como sua identidade era ideológica, estava sempre pronta a protestos.
Mies proibiu atividades políticas, mas até o simples fato da escola aliar arte a tecnologia, irritou ao nazismo, que acabou fechando a escola, quando tomou a cidade.
Num último gesto de resistência, tentaram levá-la para Berlim, mas novamente veio a perseguição e depois da prisão de alguns alunos, a Bauhaus finalmente sucumbiu, em 1933.
Foram 14 anos, três cidades e morria na Alemanha, a escola que mudou o desenho no mundo e que até hoje influencia a arquitetura e o design.
Isto se deve justamente ao fato de haver se espalhado pelos quatro cantos do planeta, professores, alunos e seguidores de um pensamento ou um conjunto de ideias revolucionárias e transgressoras, capazes de sobreviver e se renovar sempre que alguém tem a sua frente um papel, um lápis ou simplesmente ideias...
Me orgulho de fazer parte deste exército de insistentes, sobreviventes e teimosos rebeldes com causa... O amor pelas artes!
Esta matéria tem continuidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário